por Pierre Augusto
“Segredo Obscuro” falha ao tentar ser tudo
Ao atirar para todos os lados, do drama ao terror trash, a obra de Max Minghella perde a chance de ser a nova grande referência na crítica aos padrões de beleza
O culto à beleza e ao corpo perfeito sempre esteve presente na mídia, com os padrões estéticos se tornando cada vez mais abusivos e tóxicos através de procedimentos invasivos que mais parecem filmes de horror. É com essa proposta que surge o filme “Segredo Obscuro”.
Samantha Lake (Elisabeth Moss) é uma atriz em decadência, não pela sua falta de talento, mas pelo seu corpo. Por não se encaixar nos padrões estéticos da indústria, que cultua magreza extrema e descarta mulheres pela sua idade, assim ela se vê cada vez mais desesperançosa.
Até que acaba sendo seduzida pelo milagroso procedimento estético da empresa Shell, que busca parar o envelhecimento celular com o uso genes de crustáceos. Assim ela conhece Zoe Shannon (Kate Hudson), a CEO e principal rosto da marca, que a empodera em todos os sentidos. No entanto, como nada é perfeito, Samantha terá que lidar com efeitos colaterais nada estéticos.

Se a crítica ao modelo estético padrão te lembrou uma certa produção de body horror chamada “A Substância”, você está certo. O terror desde sempre se apropriou de pautas contemporâneas para se renovar, trazendo diversas abordagens para temas com os quais nos conectamos… mas algumas são melhores do que outras.
O longa dirigido por Max Minghella (The Handmaid’s Tale) flerta com o drama ao colocar peso em uma crítica extremamente válida e atual; com a comédia ao tentar ridicularizar alguns momentos; e, finalmente, com o horror, que infelizmente é o que menos aparece na tela, mas é o que mais diverte.
Essa inconstância, ou falta de habilidade para retratar o que seria a principal ameaça para a personagem de Moss, tira o peso até mesmo do que seriam as consequências de seus atos: o terror de ter crostas similares às de crustáceos deformando um corpo que só queria se adequar aos padrões da indústria.
A falta de identidade da produção esvazia toda a carga de uma denúncia real ao padrão estético. É possível equilibrar esses três gêneros em um longa, mas é preciso cadência para que um não anule o outro. Seus momentos de tensão e flerte com o thriller ou terror trash são o que realmente tiram uma boa risada. Mas por uma quebra de expectativa, se levar a sério durante tanto tempo para, no final, surtar com uma lagosta humanoide acaba sendo o ponto alto apenas pelo apelo ridículo de ir contra toda a atmosfera dramática que vinha sendo construída.
Caricatura da estética
Poucas atrizes da atualidade merecem tanto os holofotes quanto Elisabeth Moss, seja pela sua atuação em The Handmaid’s Tale, O Homem Invisível ou em outros filmes. E aqui não é diferente, a transformação vai de uma atuação leve, contida e até divertida, para o pânico e o choro.
Mas até onde uma produção que tem como principal mensagem criticar os padrões de beleza pode ir sem que acabe soando como uma caricatura de tudo o que está criticando? Aqui, a personagem é caracterizada como uma mulher insegura, com problemas de pele, que usa roupas largas e está levemente acima do peso. Isso, na leitura de um roteiro ou texto, pode parecer funcionar bem, mas nas telas do cinema soa mais como uma caricatura.
Segredo Obscuro chega aos cinemas no dia 18 de junho.