Colunas 18 abril, 2022
por Marcos Marques

Pabllo Vittar no Coachella mostra que artistas LGBTQIA+ no Brasil precisam de reconhecimento

Ela foi a primeira drag queen a se apresentar no festival. No último sábado (16), Pabllo Vittar se apresentou no Coachella, um dos maiores festivais de música do ano. A drag mais famosa do mundo cantou seus maiores sucessos enquanto a plateia cantava todas as suas letras, e também gritava com com os seus vocais […]

 

Ela foi a primeira drag queen a se apresentar no festival.

No último sábado (16), Pabllo Vittar se apresentou no Coachella, um dos maiores festivais de música do ano. A drag mais famosa do mundo cantou seus maiores sucessos enquanto a plateia cantava todas as suas letras, e também gritava com com os seus vocais e coreografias. 

Falar de carreira internacional é quase uma pauta diária. Muitos artistas brasileiros são extremamente conhecidos no mundo todo e já se apresentaram em diversos países, mas, atualmente, existe uma grande necessidade de artistas do cenário pop brasileiro ganharem o mundo. Sei que todo mundo já sabe, mas é importante mencionar o quanto a Anitta está batalhando para conquistar os Estados Unidos. A cantora tem conseguido alcançar diversos feitos inéditos para a música brasileira e ainda vai alcançar muito mais, porém, Pabllo não fica muito atrás quando pensamos nessa questão. Com apenas 5 anos de carreira, Pabllo já alcançou conquistas que a tornaram uma das maiores artistas do país.  

Pabllo se tornou conhecida no Brasil após o lançamento de Open Bar, música que usa a base de Lean On, de Major Lazer, DJ Snake e MO. Não demorou muito para a drag furar a bolha LGBTQIA+, e isso aconteceu com o lançamento de K.O, a maior música de sua carreira. Pabllo começou a aparecer em diversos programas de televisão e chegou a ser convidada para fazer uma participação especial na novela A Força do Querer, em 2017. 

Apesar de estar ganhando notoriedade por seu trabalho, isso não impediu que Pabllo sofresse ataques dos conservadores. Pabllo enfrentou (e ainda enfrenta) muita homofobia, desde ataques em redes sociais até fake news, que apesar de se tornarem “engraçadas”, foram criadas para boicotar a carreira da drag. Além disso, também começaram inúmeros boicotes em rádio: algumas delas se recusaram a tocar as músicas da Pabllo, músicas essas que estavam na boca do povo. 

Em entrevista ao El País, Pabllo comentou que devido ao seu posicionamento contra o atual presidente Jair Bolsonaro (PL) durante as eleições de 2018, ela tem sofrido boicotes vindo das rádios e dos contratantes:

Sofro boicotes nas rádios, que pararam de tocar minhas músicas, alguns empresários não me chamam mais. É muito triste. No final, isso só me dá mais vontade de fazer o meu e mostrar que o pessoal da comunidade [LGBT] tem, sim, voz ativa. E a gente vai continuar falando, porra!

Dito e feito, Pabllo continuou trabalhando muito e entregando álbuns que marcaram o cenário pop brasileiro. Além disso, ela também começou a ganhar a atenção das pessoas lá de fora, fazendo shows na Europa, Estados Unidos e na América do Sul. Pabllo chegou a ganhar um EMA (Europe Music Awards) como Melhor Artista Brasileira, além de ter se apresentado no tapete vermelho da premiação, sendo a primeira artista brasileira a se apresentar no evento e a primeira drag a ganhar um EMA.

Pabllo nunca parou, sempre entregou trabalhos de qualidade e sempre se manteve firme, fugindo de polêmicas desnecessárias e sempre focada em entregar o melhor para os vittarlovers, nome carinhoso que a cantora chama seus fãs. 

Todos os seus feitos a fizeram chegar no Coachella e não existe outra palavra para definir a não ser histórica. Pabllo nasceu no Maranhão e já disse diversas vezes sobre as dificuldades que ela e sua família sofreram. Dona Verônica criou Pabllo e sua irmã gêmea Pamela sozinha, passando por muitas dificuldades financeiras e também pelo fato da Pabllo ser um homem gay. De repente estamos prestigiando Pabllo Vittar dominando o mundo sendo uma artista nordestina, gay e afeminada sendo uma das grandes atrações de um festival internacional. 

Eu poderia fazer uma grande lista sobre artistas nacionais que são LGBTQIA+ e até fazer outro artigo falando sobre os motivos de não terem a mesma visibilidade que outros artistas heteros cisgêneros, mas ter a Pabllo chegando nesse patamar mostra que temos sim potencial de mostrar a nossa identidade para o mundo. O Brasil atualmente sofre muito com a falta de investimento na cultura e isso afeta diretamente (em vários quesitos) outros artistas, mas ver a Pabllo lá mostra que sim, existe a possibilidade de vermos outros artistas da comunidade sendo reconhecidos. É surreal pensar que alguém como ela ganharia esse espaço, porque crescemos aprendendo que pessoas como nós não mereciam nem estarem vivas e que a nossa existência é um erro. 

Pabllo é um tesouro nacional e uma das maiores artistas da atualidade. Sua apresentação no Coachella vai marcar a história da música pop no Brasil, e muito além disso, é uma esperança de que o Brasil ainda vai conquistar muitos lugares, e que um dia, essa apresentação será apenas um pequeno feito do que ainda vamos ver, não só da Pabllo, mas de muitos outros artistas LGBTQIA+.