Colunas: Filmes e Séries 20 agosto, 2025
por Pierre Augusto

Fernando Coimbra leva a máfia ao “jeitinho brasileiro” em Os Enforcados

Em entrevista, o diretor revela bastidores da produção, fala sobre a atmosfera pesada do longa e sua inspiração em Scorsese.

 

Pegue um típico filme de máfia e misture uma tragédia shakespeariana com o esquema criminoso dos bicheiros. O que temos com isso é a mais nova produção de Fernando Coimbra, Os Enforcados, um filme de máfia, mas com o jeitinho brasileiro.

Valério (Irandhir Santos de O Animal Cordial) e Regina (Leandra Leal de O Homem Que Copiava) são um casal endividado e vinculado ao esquema de corrupção do jogo do bicho na Barra da Tijuca. Apesar de fazerem parte desse império, controlado por Linduarte (Stepan Nercessian de Chacrinha: O Velho Guerreiro), tio de Valério, tudo muda quando Regina convence o marido a sujar as mãos, assassinando e tomando o lugar do tio no mundo do crime. A partir daí, acompanhamos a corrupção e a paranoia tomando conta de suas vidas.

Com o ápice da direção de Coimbra, Os Enforcados evolui a cinematografia e a habilidade ao trabalhar a tensão com momentos de humor. Em entrevista ao Portal Perifacon, Coimbra destacou o talento e o mérito do elenco na produção.

“Eu já tinha trabalhado com Leandra em O Lobo Atrás da Porta, o Irandir ainda não tinha trabalhado, mas queria muito. E eles ainda não haviam contracenado juntos, mas tinham uma coisa muito parecida, são muito focados, muito concentrados, muito parceiros e sempre trazem ideias.”

Construindo a atmosfera

Essa nova parceria rende um misto de sentimentos conflitantes aos espectadores. Um conflito de emoções que foi muito debatido com os atores para dar o tom ideal à produção.

“A gente ficou três semanas lendo, discutindo, ensaiando, o que dá uma segurança para entenderem a jornada inteira. E eles estabeleceram uma relação de confiança muito grande também, porque a situação vai ficando pesada e todos precisam estar seguros um com o outro para que funcione.”

Já familiarizado em suas outras obras ao retratar cenas necessariamente pesadas, Coimbra mostra uma afinidade com a tensão que pode pegar o espectador de surpresa.

“Não sei se posso chamar tensão de emoção mas é um estado permanente e constante no filme. Isso acaba sendo um pouco perturbador, conforme você vai acompanhando, nada é muito que parece ser, então tem uma constante descoberta e não saber muito onde você está pisando e o quanto aquilo vai ficando perturbador.”

Cinzentos como Scorsese

Ao assistir ao longa, fui atacado por uma nostalgia em que pensei como todos esses acontecimentos vividos por Valério e Regina eram semelhantes a algo que Martin Scorsese contaria. Ao questionar Coimbra, ele relembrou sua forte admiração pelo diretor, mas ressaltou que buscou construir uma identidade própria para Os Enforcados.

“O Scorsese é um dos diretores que mais gosto e mais vejo e revejo. Goodfellas, Casino, Touro Indomável e Taxi Driver são filmes que sempre assisto. Mas quando eu construía esse filme, não pensava especificamente nisso, Scorsese tem um estilo muito marcante. Mas uma coisa que vejo, e me inspira muito nos filmes dele, como ele trabalha os personagens, são os antagonistas deles mesmos. Os personagens são o que provocam a própria ruína.”

Essa característica também foi central no desenvolvimento de sua narrativa “Eles têm uma zona cinzenta, são todos eticamente ferrados. E uma coisa que ele fala é o character driven, que é ser levado pelo personagem, esse tipo de história é uma coisa que utilizo quando escrevo. Às vezes não sei o que vai acontecer porque deixo o personagem ir tomando conta”, contou o diretor.

“Os Enforcados” estreou nos cinemas no dia 14 de agosto.