Banner 30 outubro, 2024
por Redação PerifaCon

“Barba Ensopada de Sangue” se afoga em sua lentidão

Entre o mistério e o drama,o filme traz intensidade visual e emocional, mas exige fôlego do espectador.

 

Texto por Pierre Augusto

Um dos temas universais do cinema é a jornada de autoconhecimento, a reconexão com nossas origens e o entendimento de nosso lugar. Esse tema permite ser abordado de maneira descontraída, como em comédias, ou em filmes de suspense, com tensão e aquele toque soturno. Aly Muritiba constrói não só essa jornada, mas também um thriller com atmosfera densa e um drama com atuações tão silenciosas quanto intensas.

Após a morte de seu pai, Gabriel (Gabriel Leone, de Eduardo e Mônica) herda a casa de seu avô na cidade de Armação. Lá, descobre a terrível fama de seu progenitor. Em meio a tantas pessoas criticando um familiar que ele nunca conheceu, Leone se lança em uma investigação obsessiva para entender mais sobre essa história. Desde o início, suas investigações acabam chamando a atenção dos habitantes da pacata cidade de Armação. Uma das pessoas atraídas por essa curiosidade é Jasmin (Thainá Duarte, de Cangaço Novo), que, em pouco tempo, começa a nutrir sentimentos pelo protagonista, e logo eles engatam uma relação. A rapidez do romance pode parecer estranha, mas a sensibilidade transmitida por Thainá nos convence facilmente, ao contrário da apatia demonstrada por Gabriel.

Essa apatia se revela proposital. No começo do longa, me senti incomodado com o distanciamento do protagonista em relação aos demais, quase como um eco na cidade interiorana, até que uma visita inesperada de uma personagem de seu passado provoca uma reviravolta. Em um plano-sequência, eles conversam, brigam e têm um surto na que é a melhor cena dessa produção; as atuações de ambos transparecem todo o resquício de uma relação que um dia foi próspera e nos introduzem aos traumas que o levou a praticamente se esconder na casa de pedra de seu avô.

As atuações e a direção acima da média podem não manter o público interessado por muito tempo. A demora no esclarecimento de pontos essenciais ou o suspense prolongado acabam cansando, dando ao filme a impressão de estar se desenrolando em câmera lenta. Por ser uma adaptação literária de uma obra homônima, espera-se um ritmo mais lento, pois isso funciona na literatura, mas o cinema pode pedir algo mais imediato.

O que pode desagradar alguns espectadores também pode ajudar na imersão: durante o terceiro ato, o suspense/mistério prolongado ganha intensidade e o senso de perigo aumenta! A sensação de sermos estrangeiros em uma terra hostil transparece do personagem para o público.

Um ponto curioso da direção de Muritiba e da diretora de arte Ana Paula Cardoso é a escolha de filmar quase todos os momentos com um desfoque sutil, transmitindo uma profundidade limitada e a mesma restrição visual que Gabriel sente ao seu redor.

No final das contas, Barba Ensopada de Sangue é uma produção tecnicamente incrível, mas o desenrolar lento e investigativo da trama pode exigir maior paciência do público.