por Andreza Delgado
CRÍTICA | ‘Da Magia à Sedução 2’ escorrega no legado feminista que construiu
Quase 30 anos após o clássico de 1998, a família Owens está de volta. A sequência acerta na nostalgia e na química entre Sandra Bullock e Nicole Kidman, mas escorrega ao trocar a força das atitudes por discursos mastigados. Confira a crítica!
28 anos depois do lançamento do original, nos deparamos com a aguardada continuação do que, para mim, foi uma das obras feministas mais marcantes do cinema. Lançado em 1998 e dirigido por Griffin Dunne, Da Magia à Sedução acompanhava as irmãs Sally e Gillian Owens, interpretadas brilhantemente por Sandra Bullock e Nicole Kidman. Por natureza, as duas são bruxas e pertencem a uma família marcada por uma tradição feminina no domínio da magia. Sally é a irmã mais responsável, que tenta se afastar desse universo para levar uma vida comum, enquanto Gillian é impulsiva, livre e não tem medo de experimentar os poderes da família, criando uma dinâmica oposta que sempre funcionou muito bem na tela.

Criadas pelas tias Frances e Jet (Stockard Channing e Dianne Wiest), que funcionavam como guardiãs da tradição Owens, o filme original chamava atenção justamente por colocar mulheres no centro absoluto da narrativa. Imagina só duas bruxas se defendendo de um homem violento, uma delas com uma vida sexual ativa sem julgamentos, celebrando abertamente a força de ser mulher. Aquilo nos anos 90 era revolucionário. Mais do que uma história divertida, o longa falava de assuntos muito sérios, como violência contra a mulher, relacionamentos abusivos e libertação. Existe uma cena particularmente forte onde Sally e Gillian lidam com um agressor e enterram seu corpo, uma imagem de força enorme que mostrava duas mulheres tentando sobreviver e recuperar o controle de suas vidas. Mesmo sem estourar nas bilheterias inicialmente, a adaptação do livro de Alice Hoffman encontrou seu público e se tornou uma obra cult, e é justamente esse o peso que a continuação precisa carregar hoje.
A nova geração e a expansão do universo
Nesta sequência, Sandra Bullock e Nicole Kidman retornam aos seus papéis sob a direção de Susanne Bier. A história agora se inspira em The Book of Magic, romance de 2021, e foca na nova geração: Joey King e Maisie Williams ingressam na franquia para interpretar as versões adultas de Kylie e Antonia, substituindo as atrizes mirins que deram vida às filhas de Sally no primeiro filme. A ideia central é mostrar a continuidade dessa linhagem familiar, mas é justamente aí que o longa começa a escorregar. A química entre Bullock e Kidman continua absurda e existe uma intimidade em cena que dispensa explicações, mas no passado a construção delas era muito mais rica, pois eram opostas e tinham conflitos reais. As filhas de Sally, no entanto, não conseguem convencer da mesma forma e a relação entre as duas não tem a força necessária para representar o futuro da franquia.

O excesso de discurso e o cansaço dos diálogos
O retorno de Stockard Channing e Dianne Wiest é um dos pontos altos, trazendo a memória afetiva do primeiro filme e funcionando como um excelente respiro na nova narrativa. Apesar da beleza de reencontrar personagens tão queridas, os diálogos me cansaram pelo excesso de didatismo. Existe uma tentativa constante de explicar as mensagens sobre feminismo e irmandade, transformando em discurso pronto aquilo que antes aparecia de forma natural nas atitudes. Isso pesa bastante na experiência, porque o filme original nunca precisou ficar justificando a importância daquelas mulheres; elas simplesmente eram. A força da narrativa estava em acompanhar suas escolhas, erros e a proteção mútua. A sequência sabe que precisa falar sobre legado, mas parece mais preocupada em discursar sobre ele do que em construir isso organicamente.
O que permanece: a verdadeira magia do reencontro
A mitologia das Owens cresceu muito na literatura, com Alice Hoffman expandindo esse universo em vários livros, o que mostra que havia material de sobra para ser explorado sem se apoiar apenas na nostalgia. Ainda assim, apesar dos tropeços estruturais, a premissa da irmandade feminina continua sendo uma mensagem poderosa, e confesso que foi isso que me fez chorar durante o filme. Fiquei feliz em reencontrar Sally e Gillian, e em ver Frances e Jet envelhecerem na tela, continuando a fazer parte daquela mesma estrutura familiar. Da Magia à Sedução 2 pode até não saber o que fazer com seu legado, mas reafirma por que ele ainda é fundamental. A verdadeira magia da franquia nunca esteve nos feitiços, e sim nessas mulheres — e nisso, quase 30 anos depois, ainda existe muita poesia.
