Colunas 28 outubro, 2022
por Raphael Guimarães

Wendell, Wild & Leandro: Um brasileiro na nova produção da Netflix

Leandro Assis trabalhou na parceria de Jordan Peele e Henry Selick Nesta sexta-feira (28/10) chega a Netflix o novo filme animado Wendell & Wild, uma animação stop motion com um elenco majoritariamente negro. Lançada no Brasil somente na plataforma de streaming (enquanto lá fora também está sendo distribuída nos cinemas) a animação de Halloween chama […]

 

Leandro Assis trabalhou na parceria de Jordan Peele e Henry Selick

Nesta sexta-feira (28/10) chega a Netflix o novo filme animado Wendell & Wild, uma animação stop motion com um elenco majoritariamente negro.

Lançada no Brasil somente na plataforma de streaming (enquanto lá fora também está sendo distribuída nos cinemas) a animação de Halloween chama a atenção do público pelos grandes nomes que conseguiu reunir no projeto – a direção é de Henry Selick (O Estranho Mundo de Jack, Coraline), que assina o roteiro ao lado de Jordan Peele (Corra!, Nós, Não! Não Olhe!). No elenco de dublagem, o filme conta com Peele e seu parceiro de longa data Keegan Michael Key como a dupla título, respectivamente Wendell e Wild, e nomes como Lyric Ross (This is Us), Ving Rhames (Pulp Fiction), Angela Bassett (Pantera Negra) e James Hong (Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo). Uma verdadeira galeria de estrelas. 

O que você talvez não saiba é que entre tantos grandes talentos que participaram do filme, há um brasileiro.

Leandro Assis é um designer e letrista (ou lettering artist) de 30 anos. Nascido e criado no Rio de Janeiro, é conhecido pelas formas originais, cores vibrantes e tipografias não-lineares, o que o torna uma referência dentro do design e um profissional muito requisitado por grandes marcas – tanto que foi convidado pela Netflix Animation para fazer o logo de Wendell & Wild, o que foi uma grande surpresa (e uma honra maior ainda), conta o artista.

WENDELL & WILD – Kat (voiced by Lyric Ross). Cr: Netflix © 2022

“Quando chegou o e-mail eu nem acreditei. Achei que era fake. Sempre foi um sonho meu trabalhar em uma animação e a minha primeira já ser, de cara, um projeto do Jordan Peele foi um combo de coisas maravilhosas para mim.”

Muito fã de Jordan Peele, Leandro contou ao Portal PerifaCon sobre como se inspira no diretor que, desde 2017 com Corra! e desde 2012 com sua produtora Monkeypaw, tem sido reconhecido como um dos maiores talentos da atual geração de Hollywood, reinventando o cinema de terror e criando novas tendências no gênero.

“Jordan Peele é uma grande referência para mim justamente porque ele constrói uma narrativa nova para coisas que a gente já conhece. Me inspiro muito nele e traço uma relação com o meu trabalho com lettering nesse sentido de estar em um ambiente comum mas criando algo incomum a partir das minhas próprias referências.”

Segundo Leandro, o processo de criar o logo para Wendell & Wild foi muito intuitivo e minucioso, da mesma forma que ele enxerga a técnica do lettering. O artista define lettering como a arte de desenhar letras a fim de gerar uma composição única, ilustrando palavras e frases que transmitam uma sensação similar a do produto que, nesse caso, é o filme. “É um processo muito humano que uma máquina não poderia fazer, bem parecido com o próprio processo de stop-motion”, comenta Leandro.

Como a Netflix já conhecia o trabalho do designer, apenas lhe foi pedido que “fizesse o que já costuma fazer” usando de base o material que lhe foi enviado. E como a animação em stop motion possui muito material, tinha muita coisa para ser absorvida e incluída na identidade que Leandro buscava para a logo.

Mais de vinte letterings foram feitos antes que o resultado final fosse alcançado. Algumas versões refletiam o cenário da animação, outras faziam alusão a uma cena específica do longa e a versão final, foi feita a partir de elementos que Leandro observou na construção dos personagens e em como ele conseguiu relacionar isso com o estilo de tipografia que costuma criar.

Uma das versões de logo que Leandro criou e foram recusadas ao longo do processo de criação do filme.

“Eu precisei entender como os personagens são construídos, com aquela simetria imperfeita deles. Os dentes são tortos, as bocas não são simétricas como as que vemos em outras animações, os movimentos são quebrados e não tão fluidos quanto os de uma animação tradicional. É um mundo muito novo e único e o que tentei fazer foi desconstruir um pouco a forma como a gente constrói as letras. […] O meu lettering é fruto das minhas manias de ‘cansar rápido das coisas’, tanto que ele não é super refinado, possui falhas e não é 100% linear. E eu gosto disso.”

A não-linearidade em Wendell & Wild pode até ter sido estratégica mas a do trabalho de Leandro não foi. Segundo o artista, o estilo livre é algo que ele foi incorporando organicamente em seus trabalhos de acordo com suas referências de cultura pop e, principalmente, música. Leandro diz acreditar que devemos fazer o tipo de trabalho pelo qual queremos ser contratados e, bom, para ele tem dado certo.

Encontrar o seu “estilo” no design fez parte de um processo de se encontrar e se reconhecer como indivíduo também, já que as primeiras experiências com identidade visual e design que teve foram através de recortes e colagens de revistas que ele fazia, se apaixonando por cores e formas.

“As revistas que eu colecionava, recortava e transformava em minhas eram, na maioria, revistas femininas que tratavam de assuntos como emoções e sensibilidade. Eu sou gay e naquela época eu não tinha espaço para abordar assuntos como esses na minha casa, então trabalhar com essas colagens foi me ajudando a construir uma autoestima que eu não tinha e também a entender o senso estético que eu queria ter. Eu era vidrado em revistas e em toda a estética MTV, meu sonho era fazer uma vinheta da MTV – e depois eu fui entender que isso era design. E saber que o meu trabalho pode estar presente assim na vivência das pessoas, como foi comigo, é o que me inspira a continuar fazendo.”

Após Wendell & Wild, Leandro Assis diz se orgulhar muito deste trabalho e declara que gostaria de trabalhar novamente com animação.

“Eu percebi que animação tem uma liberdade para apostar em coisas novas, especialmente quando os envolvidos são especialistas em piração. Eu curti muito e quero fazer mais, me trouxe uma perspectiva diferente do que já faço no meu dia a dia.”

Em Wendell & Wild, os irmãos-demônio que dão titulo ao filme recrutam a jovem Kat Elliot para invocá-los ao mundo dos vivos, onde poderão tocar o terror. O filme tem roteiro de Jordan Peele, direção de Henry Selick e logo de Leandro Assis. Já disponível na Netflix.