Banner 2 julho, 2024
por Redação PerifaCon

De Diadema á Berlim: Conheça Nenesurreal

A artista compartilha sua trajetória e vivências no mundo do grafite

 

Entrevista por Andreza Delgado. Texto por Andreza Delgado e Giulia Cardoso 

Diretamente de uma pequena sala em Berlim, vestindo uma jaqueta branca com desenhos de flores que pareciam ser pintados a mão, um adereço verde e amarelo que envolve seus dreads e se misturam com os cabelos brancos, a grafiteira Nenesurreal, fala como chegou nesse vulgo.

Numa mistura de recusa consciente e política, ela me conta que a escolha nasceu em uma visita ao ateliê de um colega escultor chamado Ricardo Amadazi, que, surpreso, a viu contemplando suas obras e acabou repetindo a frase “Nenê Surreal”. A partir daí, ela decidiu que seria sua assinatura, afinal, ao recusar o “Sales” do seu sobrenome, esse nome também partiria de uma decisão política. Não só isso, mas em nossa conversa ela faz questão de frisar que é “Nenesurreal, tudo junto e sem acento”.

A Preservação da memória feminina no Grafite

Gentilmente a artista faz a leitura de uma passagem do catálogo “NeneSurreal – Arte e Movimento” em que começa referenciando Lélia González. Nas palavras dela, esse texto é uma oração que fala muito sobre a mesma e demonstra o desejo de ter mais mulheres negras tomando os espaços na cena feminina do grafite e literatura.

Um trecho do texto de Ketty Valencio diz: “quero olhar ao meu lado e ver mais mulheres pretas comigo, ocupando as ruas e todos os espaços possíveis” essa afirmação é ressaltada quando Nenê relata sua procura pelas grafiteiras de mais de 50 anos e como acaba encontrando desafios devido a falta da preservação da memória.

“eu venho de uma geração que até registrava, mas essa conservação de registros também se perde, por conta de não ter um legado.”

Ela, que tem 57 anos, reforça que não estava sozinha pois tinham moças construindo a cena com ela e ressalta um encantamento pela nova geração, sobretudo pelas “minas” do nordeste que possuem um elo a ser observado.

Em nossa conversa também veio à tona a importância de se posicionar e de sentar fazendo uma escuta ativa das particularidades de cada indivíduo, pois assim podemos rever pensamentos e trazer de volta as mulheres da cena. “Acho massa o que tá acontecendo, mas falta a gente sentar em roda e escutar, entender o momento e o tempo de cada uma.”, diz nenesurreal.

Sua ida para Berlim

Residindo em uma espaço que ela apelida de quilombo, a artista nos traz o motivo de estar fora do Brasil neste momento. Após perder a sua produtora e companheira DJ Aline Vargas, Nenê se encontrou perdida, mas a sua rede de apoio a incentivou e lembrou da importância dela estar lá em Berlim pintando mostrando sua existência.

Sua ida se deu através do comitê Marielle Franco e foram três dias de pintura da fachada de um GangWay. ela e mais quinze pessoas tiveram a tarefa de realizar esse mural e ainda imprimir a identidade de cada um deles, missão que foi bem sucedida

Além disso, essa saída do país também significou algo mais íntimo para ela. A grafiteira se emociona ao falar sobre sua relação com a DJ Aline e sobre as inseguranças que a afligem internamente. “A todo momento a gente tem que se provar né, não teve um momento da minha vida que eu não tive que provar a minha capacidade para as pessoas […] eu saí do Brasil tendo que provar coisas e eu chego aqui em Berlim também tendo que provar coisas.”, relata a grafiteira

Obra de Nenesurreal

Do trauma da ortopedia, para pintar empenas de mais de 5 metros

Com duas faculdade de artes, Nenê conta que trabalhou por anos na ala de trauma ortopédico, mas sempre esteve conectada com as artes. Ao ganhar dos hospitais aço cirúrgico ela produzia esculturas, e conta que alguns dos locais onde trabalhou receberam telas e esculturas da mesma. “Mesmo dentro do hospital e da enfermagem, eu estava mexendo com arte”, diz a artista.

Com 20 anos trabalhando nessa área, ela já teve que passar 72h em um hospital. Essa dinâmica era necessária para se manter, além de criar e formar sua filha; isso fez com que Nenê criasse uma meta: quando a garota terminasse a pós graduação, ela começaria uma faculdade de artes. Dito e feito, mas, apesar de tudo, isso o grafite sempre esteve em sua essência.

E foi em uma das suas folgas, onde tirou um tempo para pintar, que um médico ligou para ela e perguntou se poderia ajudá-lo com uma cirurgia, a mesma olhou para si (que estava coberta de tinta) e disse que não conseguia. “Naquele dia mano, foi libertador, passou um tempo e eu saí da enfermagem. Eu tenho vários diplomas mas o que dá dinheiro é a rua, quem me dá dinheiro é o grafite e eu não me arrependo em nenhum momento”

Nenesurreal posando ao lado uma obra sua

DIADEMA: 50 anos na mesma rua

Apesar de nascer na Vila Mariana, centro-sul de São Paulo. Nenesurreal se mudou com 4 anos para Diadema, mais especificamente para uma rua onde morou por 50 anos. O censo de 2022 revelou que a população de Diadema é de 393.237 habitantes, comparando com outros municípios do estado, o torna um dos mais populosos.

Por fim, contar essa história e demarcar seu território, faz com que pensemos mais sobre quantas Nenesurreal estão por vir, passarão e que precisam ter seu legado preservado e contado. Para que dê conta da potência, dos territórios e seus artistas.

Viva Nenesurreal e seu legado no grafite.