Notícias 20 outubro, 2026
por Rafael Oliveira

Crítica | Pequenas Tragédias – a tragicomédia fabular e semidocumental de Daniel Nolasco

Irônico. Cínico. São as primeiras palavras que saltam à mente assim que as engrenagens de Pequenas Tragédias, novo filme do cinema notoriamente queer de Daniel Nolasco, começam a girar. E considerando todas as características que Nolasco construiu para si para identificá-lo como autor, da investigação do desejo até territórios goianos que lhe são muito costumeiros, […]

 

Irônico. Cínico. São as primeiras palavras que saltam à mente assim que as engrenagens de Pequenas Tragédias, novo filme do cinema notoriamente queer de Daniel Nolasco, começam a girar. E considerando todas as características que Nolasco construiu para si para identificá-lo como autor, da investigação do desejo até territórios goianos que lhe são muito costumeiros, é de um auto-conhecimento mordaz que o protagonista do filme, uma projeção dele próprio, não exatamente fiel fisicamente, seja apresentado sem grandes concessões dentro dessas características enquanto desenvolve esse olhar duro sobre o conservadorismo de Catalão, pequena cidade do sul de Goiás.

Pequenas Tragédias é um filme que carrega completa consciência do que lhe forma enquanto recorte pessoal e geracional, sabendo exatamente no que tocar e como tocar para alavancar sua narrativa a uma fantasia autoficcional muito bem decidida em seus exageros, em suas estilizações, em prol de priorizar os seus caminhos de fabulação da vida real.

E não que seja uma surpresa ver Nolasco simplificar a própria busca factual por seu passado em prol das lembranças e do destino de seus amigos queers dentro de uma narrativa que celebra a encenação, a fisicalidade dessa mesma memória, mas ok, talvez simplificar nem seja realmente a palavra certa aqui, já que Nolasco segue fiel aos seus objetivos de sempre: se livrar dos pesos, dos traumas e das obrigações que o retorno ao seu posto do passado lhe trouxe ao se envolver novamente com sua cidade natal. O correto seria apontar Pequenas Tragédias como um filme muito mais direto onde o protagonista/projeção de Nolasco precisa chegar e todos os desafios que irá enfrentar neste caminho, seja em revisitar a homofobia, os efeitos da AIDS em sua vida (não necessariamente de forma direta) e o que mais se apresentar para atingir esse objetivo de expiação.

Uma reação talvez previsível que este filme venha a enfrentar é a de que ele se posiciona puramente na estética pela estética (é um filme bastante Almodovariano nesse sentido), na encenação pela encenação, já que é um filme que se deleita sobre suas possibilidades de amadurecimento enquanto híbrido de um cinema que sempre se posicionou entre o documental e o ficcional, e que constantemente se desafia na expansão de sua mitologia interiorana. Mitologia que encontra sua voz na fisicalidade desse universo com todo o lirismo que lhe é possível, seja na subversão de esquetes se seriados televisivos ou no impacto do epílogo onde imagens reais de Catalão representam tanto a sobrevivência quanto a ausência daqueles corpos. É através do apego a estes blocos estruturais que forma o filme, ou até na reconstrução ficcional de uma última conversa que nunca aconteceu, que Nolasco solidifica seus próprios limites. Ou a ausência deles?

Como alicerce de toda essa força estética e narrativa, Nolasco encontra não somente um elenco que atende com eficácia  as exigências sobre suas entregas (Guilherme Théo transborda o deboche e o cinismo da própria persona de Nolasco), mas também sequências muitíssimo bem fotografadas/decupadas pelo diretor de fotografia Felipe Quintelas, que inclusive reforça com extrema sensibilidade o segmento da travesti Monalisa, o epicentro do filme nesse espetáculo de comédia triste e urgente, de fantasia biográfica que acredita piamente na potência das suas imagens e em todo e qualquer significado político ou afetivo que possa estar atrelado a ela.

E não se engane, filmes que depositam tanta confiança na força das imagens não surgem sempre no cinema estéril contemporâneo.

Visto na 50º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Desenvolvido com ♥ por TECHD