Colunas 23 junho, 2022
por Redação PerifaCon

Elza vive! 20 anos de Elza Soares no Roda Viva

Relembre as falas e a força da artista que completaria 92 anos hoje No dia 23 de Junho de 1930 nascia Elza Gomes da Conceição, mais conhecida como Elza Soares, artista fundamental para a história da música brasileira que se tornou um ícone mundial do samba, jazz, soul, mpb e até do rock! Caso estivesse […]

 

Relembre as falas e a força da artista que completaria 92 anos hoje

No dia 23 de Junho de 1930 nascia Elza Gomes da Conceição, mais conhecida como Elza Soares, artista fundamental para a história da música brasileira que se tornou um ícone mundial do samba, jazz, soul, mpb e até do rock!

Caso estivesse entre nós, hoje Elza completaria 92 anos de idade. A música deixou um legado de diversas contribuições com outros artistas importantes da música brasileira (como Jorge Aragão, Caetano Veloso e Gal Costa), 33 álbuns de estúdio e vários prêmios, como uma homenagem pelo Trófeu Raça Negra em 2016 e o prêmio de melhor álbum no Troféu APCA em 2015, pelo disco Mulher do Fim do Mundo.

Trecho de Maria da Vila Matilde. Reprodução: @aquarelagem

Entre todas as obras em que Elza se expôs ao mundo, com suas ideias e seu jeito de fazer arte e encarar a vida, estão também as entrevistas da cantora, que sempre chamou atenção pelo seu jeito irreverente de se comunicar e de se posicionar como uma mulher negra vinda da periferia do Rio de Janeiro.

Em 2022, completam-se 20 anos de uma das entrevistas mais marcantes e icônicas da carreira da cantora: sua entrevista de 2002 no programa Roda Viva, da TV Cultura. A entrevista rolou como parte da divulgação do disco Do Cóccix Até o Pescoço. Quando questionada sobre os momentos em que se sente melhor, Elza aproveitou para se afirmar como uma pessoa dependente do palco, das apresentações e da música.

Toda vez que eu entro no palco eu me sinto o máximo. Eu nasci pro palco,sem o palco eu sou nada, fora do palco eu sou a Conceição. 

É importante ressaltar que o Roda Viva é um programa que até hoje fomenta discussões e possui alta relevância na mídia brasileira, mas pelo caráter “intelectual” que busca ter acaba falhando em representatividade na sua roda de entrevistados, já que o conceito de intelectualidade da TV brasileira por vezes é masculino, cisgênero, branco e de classe média alta. Algumas perguntas feitas pelos entrevistadores podem soar insensíveis, ignorantes e até reducionistas quando falam sobre a música que tem origem e toca nas periferias. Elza se posicionou sobre os estigmas em relação às favelas:

Toda a criminalidade está no asfalto, a favela paga porque é onde tem mais pobre. Eu continuo favela. Favela é dignidade. É preciso olhar pra favela com mais dignidade.

Elza no clipe de A Mulher do Fim do Mundo. Reprodução: Divulgação

Em 2022, é inspirador assistir esse programa e ver que já em 2002 Elza era uma personalidade de posicionamento firme em relação a suas crenças políticas e ideológicas e que enxergava a força que ela representava para as mulheres negras do Brasil. Em momentos da entrevista em que o passado triste de Elza foi mencionado pelos entrevistadores (ás vezes até de maneira inconveniente), a artista não deixou de reafirmar sua potência como algo alimentado. Como uma artista que reconhece a influência de sua vivência em seu trabalho, a cantora disse:

Cada porrada que eu levo é como se fosse um beijo.  Às vezes, é preciso beijar a lona pra ganhar a luta. […] A vida é bandida, tem que ter um pouco de malandragem pra saber driblar essa vida.

Hoje é o primeiro aniversário da artista desde seu falecimento em janeiro de 2022. Ao invés de usar essa data para lamentarmos a falta sentida da artista, que de fato foi um fenômeno único no Brasil e no mundo, devemos seguir o exemplo da cantora e erguer a cabeça para celebrarmos o impacto da arte de Elza e todos os ensinamentos que ela nos deixou. Ao celebrarmos também as duas décadas da participação de Elza no Roda Viva, valorizamos a presença de talentos negros, femininos e de periferia em espaços de grande renome e visibilidade na mídia, algo sempre valorizado pela aniversariante de hoje e que deve se destacar como uma das marcas da artista em sua passagem pelo mundo.

Eu acredito na vida. Ainda acredito no ser humano. É isso que me faz viva, acreditar no ser humano.

Elza no clipe de A Carne. Reprodução: divulgação

Elza Soares vive! E com ela, tudo que aprendemos com seu legado.