por Rafael Oliveira
Crítica | Pequenas Tragédias – a tragicomédia fabular e semidocumental de Daniel Nolasco
Irônico. Cínico. São as primeiras palavras que saltam à mente assim que as engrenagens de Pequenas Tragédias, novo filme do cinema notoriamente queer de Daniel Nolasco, começam a girar. E considerando todas as características que Nolasco construiu para si para identificá-lo como autor, da investigação do desejo até territórios goianos que lhe são muito costumeiros, […]

Irônico. Cínico. São as primeiras palavras que saltam à mente assim que as engrenagens de Pequenas Tragédias, novo filme do cinema notoriamente queer de Daniel Nolasco, começam a girar. E considerando todas as características que Nolasco construiu para si para identificá-lo como autor, da investigação do desejo até territórios goianos que lhe são muito costumeiros, é de um auto-conhecimento mordaz que o protagonista do filme, uma projeção dele próprio, não exatamente fiel fisicamente, seja apresentado sem grandes concessões dentro dessas características enquanto desenvolve esse olhar duro sobre o conservadorismo de Catalão, pequena cidade do sul de Goiás.
Pequenas Tragédias é um filme que carrega completa consciência do que lhe forma enquanto recorte pessoal e geracional, sabendo exatamente no que tocar e como tocar para alavancar sua narrativa a uma fantasia autoficcional muito bem decidida em seus exageros, em suas estilizações, em prol de priorizar os seus caminhos de fabulação da vida real.
E não que seja uma surpresa ver Nolasco simplificar a própria busca factual por seu passado em prol das lembranças e do destino de seus amigos queers dentro de uma narrativa que celebra a encenação, a fisicalidade dessa mesma memória, mas ok, talvez simplificar nem seja realmente a palavra certa aqui, já que Nolasco segue fiel aos seus objetivos de sempre: se livrar dos pesos, dos traumas e das obrigações que o retorno ao seu posto do passado lhe trouxe ao se envolver novamente com sua cidade natal. O correto seria apontar Pequenas Tragédias como um filme muito mais direto onde o protagonista/projeção de Nolasco precisa chegar e todos os desafios que irá enfrentar neste caminho, seja em revisitar a homofobia, os efeitos da AIDS em sua vida (não necessariamente de forma direta) e o que mais se apresentar para atingir esse objetivo de expiação.

Uma reação talvez previsível que este filme venha a enfrentar é a de que ele se posiciona puramente na estética pela estética (é um filme bastante Almodovariano nesse sentido), na encenação pela encenação, já que é um filme que se deleita sobre suas possibilidades de amadurecimento enquanto híbrido de um cinema que sempre se posicionou entre o documental e o ficcional, e que constantemente se desafia na expansão de sua mitologia interiorana. Mitologia que encontra sua voz na fisicalidade desse universo com todo o lirismo que lhe é possível, seja na subversão de esquetes se seriados televisivos ou no impacto do epílogo onde imagens reais de Catalão representam tanto a sobrevivência quanto a ausência daqueles corpos. É através do apego a estes blocos estruturais que forma o filme, ou até na reconstrução ficcional de uma última conversa que nunca aconteceu, que Nolasco solidifica seus próprios limites. Ou a ausência deles?
Como alicerce de toda essa força estética e narrativa, Nolasco encontra não somente um elenco que atende com eficácia as exigências sobre suas entregas (Guilherme Théo transborda o deboche e o cinismo da própria persona de Nolasco), mas também sequências muitíssimo bem fotografadas/decupadas pelo diretor de fotografia Felipe Quintelas, que inclusive reforça com extrema sensibilidade o segmento da travesti Monalisa, o epicentro do filme nesse espetáculo de comédia triste e urgente, de fantasia biográfica que acredita piamente na potência das suas imagens e em todo e qualquer significado político ou afetivo que possa estar atrelado a ela.
E não se engane, filmes que depositam tanta confiança na força das imagens não surgem sempre no cinema estéril contemporâneo.
Visto na 50º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
