Colunas 19 dezembro, 2025
por Andreza Delgado

A ‘Empregada’ funciona mesmo com a presença de Sidney Sweeney?

A Empregada é um thriller psicológico que explora dinâmicas de poder, violência silenciosa e gênero dentro de uma família rica. Sidney Sweeney interpreta Millie, cuja experiência como empregada doméstica revela segredos perturbadores. Nesta review, discuto como o filme se conecta com debates sobre representação feminina e por que funciona mesmo com limitações, oferecendo reflexão e desconforto necessários para o público.

 

“A Empregada” (The Housemaid) é a adaptação cinematográfica do livro homônimo de Freida McFadden. O filme acompanha Millie, interpretada por Sidney Sweeney, que começa seu novo emprego como empregada doméstica na casa da família Winchester. O que parecia uma oportunidade de recomeço se transforma em algo cada vez mais inquietante, à medida que os segredos da família vêm à tona.

Millie é uma jovem em dificuldades financeiras que enxerga naquele trabalho a chance de reorganizar a própria vida. Ela passa a trabalhar para Nina, vivida por Amanda Seyfried, e Andrew, interpretado por Brandon Sklenar, um casal rico que aparenta perfeição. Logo, fica claro que os segredos daquela casa são muito mais perigosos do que os da própria protagonista.

O filme encontra seu próprio caminho

Sinceramente, a adaptação supera o material original. O livro de McFadden não é uma leitura leve: é explicativo demais, com soluções mirabolantes e longos trechos confusos. Muitas vezes, cansa mais do que provoca. E quando eu digo mirabolantes, eu entendo que estamos falando de literatura e que existe recursos que podem ser usados de forma mais ousadas, mas eu realmente acho que Mcfadden soube usalos

O filme, por outro lado, entende melhor o que quer contar. Ao invés de explicar tudo, aposta na atmosfera, no desconforto e nos silêncios. A tensão cresce aos poucos e se sustenta mais pelo que é sugerido do que pelo que é mostrado, funcionando como um thriller psicológico efetivo.

atuações e escolhas que incomodam

Amanda Seyfried e Brandon Sklenar engolem Sidney Sweeney em cena. A atuação de Sweeney passa a sensação de que a personagem poderia ser interpretada por qualquer outra atriz. Isso incomoda, principalmente pela forma como o filme conduz Millie como uma grande coitada.

No livro, a construção das personagens é mais interessante. O leitor é provocado a sentir raiva e desconfiança simultaneamente: Nina é instável e beirando a perversidade, enquanto Millie parece querer roubar a vida da patroa. Essa ambiguidade cria tensão real, que o filme abandona, suavizando demais a protagonista.


representação feminina e violência psicológica

A escolha do filme diz muito sobre como o cinema ainda trata mulheres em situações vulneráveis. Ao transformar Millie em vítima passiva, reduz sua complexidade e limita sua agência. Ela reage, mas raramente age.

O desconforto do livro vinha justamente da ausência de heroínas fáceis. Nenhuma das personagens era plenamente confiável; ambas carregavam contradições e atitudes moralmente questionáveis. O filme, ao proteger Millie do julgamento do público, elimina essa ambiguidade e simplifica a história.

Existe também uma tendência em associar sofrimento feminino à pureza moral. Como se, para que uma mulher seja digna de empatia, ela precisasse ser completamente inocente. Essa lógica empobrece narrativas que poderiam ser mais provocativas.


Amanda Seyfried

gênero, atravessamento e identificação

Mas vamos ao que interessa. Talvez “A Empregada” não seja um filme excelente. Ele não é. Ainda assim, cumpre o que promete: um thriller psicológico inserido no auge das discussões sobre gênero, poder e violência silenciosa.

Para você que não me conhece, leitor, eu sou uma mulher negra. Mesmo assim, o filme conseguiu me conectar cem por cento à questão de gênero que propõe. Não porque seja perfeito, mas porque toca estruturas reconhecíveis: controle, manipulação e violência psicológica atravessam diferentes corpos e realidades.

Por isso, eu indicaria esse filme principalmente para homens. Não como entretenimento leve, mas como exercício de escuta. O que está em jogo ali não é o choque, e sim o reconhecimento de dinâmicas que costumam ser normalizadas no cotidiano. Nesse sentido, o filme funciona quase como material didático, especialmente para quem acompanha a cultura pop como ferramenta de transformação social.


não vou dar nota ….

Talvez essa review seja mais um desabafo do que um texto pensado para chegar a uma nota final. E está tudo bem.

Eu não indicaria o livro. O filme, sim. Mesmo com limitações, ele entende melhor o tempo em que está sendo lançado e o debate que decide tocar. “A Empregada” não é revolucionário, mas provoca incômodo, identificação e reflexão

Confesso que não imaginei encerrar o ano indicando um filme com Sidney Sweeney. Ainda assim, “A Empregada” funciona, mesmo sendo um filme marcado pela presença dela.

O filme chega aos cinemas brasileiros em 1º de janeiro.

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