Ásia & Racialidades 25 fevereiro, 2025
por Érica Imenes

MosBank estão obcecados pelo Brasil (e o sentimento é mútuo)

Atores tailandeses de Boys Love expressam carinho pelo Brasil e vontade de residência permanente, além da importância da representatividade de narrativas LGBTQIAPN+ para além da indústria.

 
MosBank no palco do evento “Come To”. Foto: Reprodução (Instagram/@isbanky, @moslhong e @gigmusic)

Em passagem recente pelo país, atores tailandeses conhecidos na cena dos Boys Love descobrem paixão pela experiência brasileira e afirmam “somos como família”

O ano mal começou e já nos trouxe uma enxurrada de Fanmeetings – um formato de eventos bem familiar para os fãs de culturas asiáticas, que mistura performances musicais, interações com fãs e momentos de perguntas e respostas com artistas. Em meio a uma agenda concorrida na cena local, MosBank, como é conhecido o nome unificado do casal de atores em um ship, veio ao país no fim de janeiro para finalmente entregar o “come to Brazil” que engajou suas redes sociais nos últimos dois anos.

E quando digo “finalmente”, leia-se “que bom que dessa vez não foi cancelado”. Há menos de um ano, o  duo teve uma mini-turnê, então confirmada, que passaria por duas cidades brasileiras – São Paulo e Fortaleza – em abril de 2024. A ‘The Dargon Tour’, um fanmeeting do squad da Starhunter Entertainment, composto por Mos, Bank e os também atores, Fong e JJ. Segundo divulgação oficial dos organizadores, o braço brasileiro da turnê caiu “devido a baixa venda de ingressos”. Na época, a nota de cancelamento causou revolta entre fãs, que contra argumentaram falta de organização da produtora brasileira.

Independente do desconforto que a situação causou entre artistas, empresas e fandom, o sonho de vir ao nosso país havia sido apenas adiado nos planos dos dois. “A primeira vez, nós ficamos chocados (…) A Tailândia e o Brasil ficam tão distantes, mas temos tanto em comum! As culturas, as árvores, a cidade caótica”, afirma Bank, em meio a um papo descontraído.

“Até nossos looks são parecidos!”, completa Mos, rindo e traçando paralelos que eu entendi: não tinham a ver com a nossa similaridade cultural – ou experiência coletiva enquanto sociedades. Mas com o fato de que qualquer coisa para demonstrar afeto com a tão esperada viagem para solo brasileiro seria usada. E, não só pela animação da viagem em si, mas, também, o que eles encontraram quando chegaram aqui: a nossa hospitalidade. 

Nossos looks realmente estavam parecidos. Foto: Acervo Pessoal (Instagram/@ericaimenes)

Brasil é a Tailândia da América Latina

E, se o jeitinho brasileiro é usado muitas vezes para quebrar regras, para Mos e Bank se tornou sinônimo de familiaridade: “As pessoas estavam chamando a gente pra comer a comida da mãe delas, na casa delas! Isso é incrível”. Na noite anterior ao nosso encontro, durante o evento “Come To” era possível ouvir da pista os gritos do pequeno grupo que atendeu ao evento com ofertas de refeições caseiras. Quando sugeri que eles deveriam ter uma casa no Brasil, Mos não hesitou “Eu quero!”.

Mas a energia de lua de mel não rolou somente entre os atores e seus fãs locais. Acho que em mais de 15 anos de carreira eu nunca me senti segurando vela para artistas que entrevistei, mas pra tudo tem uma primeira vez. “Ele está me convidando pra morar com ele. Acha que eu devo aceitar?” brinca Bank, em tom de confidência.

A real é que, brincadeiras à parte, a relação entre eles parece vir de um sentimento muito honesto – e que independe de um status, ou do julgamento alheio. Quando Bank afirma “O Mos é muito bom pra mim” e Mos se apressa pra descrever seu parceiro como “(…) uma pessoa que faz todo mundo se apaixonar por ele” em resposta, eu sabia que estava presenciando uma das trocas mais legais que se pode ver entre duas pessoas. E eu acho isso lindo (sem meme!).

A química do casal! Foto: Reprodução (Instagram/@isbanky e @moslhong)

Quem é MosBank na fila do pão?

Mos Panuwat Sopradit (23) e Bank “Isbanky” Mondop Heamtan (27) tem buscado excelência artística em outros campos, fora a atuação: ambos são modelos e empreendedores; e Bank arranca suspiros como cantor. Com alguns anos a mais de carreira do que seu nong – tailandês para irmão mais novo – Bank debutou na TV com um papel coadjuvante na série Bad Genius (2022). A estreia de Mos viria dois anos depois, assumindo metade do protagonismo de Big Dragon The Series ao lado de seu atual parceiro, em um plot de inimigos-que-se-tornam-amantes que a gente adora. 

Em 2024, estrelaram o BL Sunset x Vibes (um romance entre um bilionário e um jovem designer de joias que vai estagiar na empresa de sua família sem que ele soubesse, após um encontro por aplicativo de namoro) que, apesar do plot que misturou romance contemporâneo com elementos da mitologia tailandesa, não alcançou os números esperados de audiência, segundo o desabafo do próprio Bank em uma live em seu perfil pessoal do Instagram, no ano passado.

Mesmo que a aderência possa ter ficado abaixo das expectativas comerciais, os atores foram elogiados pela crescente química nas cenas de romance e carisma, algo que ambos têm naturalmente.

Mais que amigos, parceiros de vida. Foto: Reprodução (Instagram/@isbanky e @moslhong)

Mais que amigos, parceiros de vida.

E como não ter química? Bank resume a existência de Mos a de um super-homem. “(…)Se você pedir pra ele te ensinar a nadar e ele não souber, ele vai aprender só pra poder te ajudar. Às vezes eu me cobro muito e ele é o primeiro a dizer ‘dane-se!’ e sempre me incentivar a continuar”. Não é à toa que saímos da sala apelidando Mos carinhosamente de sunshine (raio-de-sol). “Ele ilumina tudo com seu sorriso”

Mas, quando falamos de Boys Love, estamos falando de representação da comunidade queer em obras de ficção com narrativas LGBTQIAPN+ no centro de qualquer gênero do audiovisual. E precisamos reconhecer os pontos em que a cena BL ainda tem o que crescer: desde a forma como essas narrativa são tratadas por quem escreve e produz, até a forma como existem pessoas dispostas a consumir as narrativas homoafetivas, desde que elas não se confirmem na realidade (ou: ‘ser fã de gays na ficção’, contanto que eles não existam na vida real. E isso lá faz sentido?). 

Lutas diferentes, direitos iguais.

Ao serem questionados como eles enxergam a evolução da indústria e o papel deles nas discussões que realmente importam, os atores não decepcionaram. “Eu quero que todo o entretenimento de BL se posicione e melhore em suas produções (…) eu tento mostrar como pessoas que nascem e só amam alguém, sem rótulos. Amor é amor. Eu quero que a indústria BL fique cada vez mais global, pra que as pessoas se vejam e sejam felizes”, afirma Bank.

Em eco ao parceiro, Mos comenta como antes a Tailândia não era tão aberta, mas os BLs estão ajudando nessa mudança “há mais igualdade, então sentimos que podemos dar voz ao amor dessa forma”. A Tailândia comemora a recente lei de casamento igualitário, que garante direitos financeiros, legais e médicos para casais de pessoas do mesmo sexo. 

 Desromantizando o reflexo positivo agora garantido por lei, a indústria de BLs tailandesa é notória por comercializar os ships fixos como parte do pacote das séries, eventos e merchandising. O que basicamente significa que um casal fixado de atores que atuam em várias séries juntos são geralmente chamados de imaginary couple (casal imaginário) e, mesmo fora de seus personagens, são contratados para aparições públicas, onde o requerido por seus apoiadores é o chamado fanservice:

  • Esse ato de “servir”, para atores de BL, pode se manifestar desde simples trocas de olhares, até carinho físico mais intenso, ou, considerado…romântico. Cada ação é esquadrinhada, gravada, publicada e interpretada por fãs nos mais variados níveis de investimento emocional em seu ship (casal) favorito. Em muitos casos, atos de fanservice são apenas ossos do ofício, e não representam relações românticas na vida real. 

Mas, se MosBank deixou uma impressão em mim, é que sua relação vai além do que meros colegas de trabalho. “Daqui a cinco anos eu ainda estarei com o Banksy”, alega Mos, sem hesitar. E sobre dúvidas se todo o trabalho desses jovens artistas é fanservice ou não: eu entendo que o melhor “serviço” que se pode fazer ao fandom é mostrar a autenticidade de uma relação construída com afeto, confiança e apoio mútuos. E nisso, MosBank entrega.

“Love Wins” (o amor vence), diz a legenda do post comemorativo da lei de casamento igualitário aprovada pela Tailândia entre 2024 e 2025. Foto: Reprodução (Instagram/@isbanky e @moslhong)

O próximo capítulo

Para projetos futuros, já foi anunciado o próximo BL dos dois. Be My Soulmate, a história de dois colegas de quarto que não vão com a cara um do outro, mas que desenvolvem sentimentos românticos enquanto aprendem a conviver no mesmo dormitório. Nada de caras ricos e plots mirabolantes. Só “dois garotos comuns se apaixonando”, como disse Bank, sem dar muitos spoilers. O artista também planeja lançar uma nova música inspirada no Brasil, ainda sem data de lançamento. 

Enquanto os próximos trabalhos de MosBank não saem do papel – e o CPF deles não é emitido – só podemos esperar que a indústria tailandesa os trate com o mesmo carinho que o Brasil tratou, porque entrega e atitude de grandes estrelas eles já tem de sobra.

ASSISTA AO PAPO COM MOSBANK NO CANAL DA CHIMERA MEDIA:

https://www.youtube.com/watch?v=Py8GXpFVy94&t=71s

SIGA: @ericaimenes | @chimeramediaBR